As partes de um violoncelo

O corpo do violoncelo é formado pela partes na figura e na tabela abaixo. Colocamos também os termos em inglês, alemão e francês para referência.


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1 O tampo The top Die Decke La table
1a O fundo The back Der Boden Le fond
2 O filete The ribs (or purflings) Die Zargen L'eclisse
3 Os F's The F holes Die F-Locher Les F.
4 O espigão The tail-pin (or end-pin) Der Stiften (oder Stachel) L'epine
5 O estandarte The tail-piece Der Saitenhalter Le tire-cordes
6 O espelho The fingerboard Das Griffbret La touche
7 O braço The neck Der Hals Le manche
8 A pestana The saddle Der Sattel Le sillet
9 As cravelhas (são 4) The pegs Die Wirbel Les chevilles
10 A caixa das cravelhas The peg-box Der Wirbelkasten La caisse des crevilles
11 A voluta The scroll Die Schnecke La coquille
12 O cavalete The bridge Der Steg Le chevalet
13 Os afinadores finos The fine tuners ? ?
14 A vareta do arco The bow-stick Die Hogenstange La baguette
15 A ponta do arco The head (or the tip) Der Kopf La pointe de l'archet
16 O talão do arco The nut (or the frog) Der Frosch La hausse de l'archet
17 A crina The hair Die Haare Les crins

 

Um violoncelo é composto de aproximadamente 70 partes diferentes e tem um corpo de 75-76 cm. de comprimento.

A qualidade da madeira é extremamente importante, pois dela resultará num instrumento de qualidade e som superiores. A seleção da madeira é feita dando-se preferência àquela que tiver um desenho de anéis de crescimento estreito e regular. A espessura ideal da madeira (tampo e fundo) deve ser a menor possível, desde que não haja perda de resistência.

Tampo - O tampo superior é esculpido, resultando em um formato arqueado, quase sempre feito em duas partes coladas, de madeira macia e leve como pinho escocês, abeto norueguês, araucária, com espessura média de 4,5 mm. dependendo da densidade e do peso da madeira escolhida.

Fundo - O fundo (costas) do violoncelo é feito de madeira mais dura. O fundo pode ser desenhado ou totalmente liso; é feito em uma só peça ou, mais freqüentemente, de duas partes iguais, coladas. Assim como o tampo, ele é abaulado e sua espessura varia, sendo mais espesso ao centro. A espessura ideal vai depender das propriedades físicas da madeira. Alguns lutaios chegam a ela "afinando" o tampo e o fundo através de batidas na madeira com os nós dos dedos e ouvindo o som resultante. Quanto mais grossa a madeira, mais agudo o som produzido. É importante que o tampo e o fundo produzam sons com intervalo de pelo menos meio tom, de forma a assegurar um equilíbrio na resposta harmônica do instrumento.

A madeira usada no fundo é mais resistente e, apesar do corte ser exatamente igual ao do tampo, o desenho se mostra totalmente diferente, sendo ligeiramente ondulado e apresentando veios dispostos no sentido horizontal; o resultado final desse desenho proporciona ao instrumento um excelente efeito estético, mas não influi significativamente na escolha da madeira. O fundo do cello age mais como refletor do som, ao contrário do tampo, onde se iniciam as vibrações da caixa acústica. Se a cunha retirada da tora não possuir largura suficiente para um fundo inteiro o lutaio pode optar por fazê-lo em duas partes. Cola-se as duas partes da cunha pela área mais grossa e portanto com os anéis de crescimento da árvore mais externos e novos.

Os "efes" - Os recortes em forma de f são cortados depois de cuidadoso estudo para encontrar a posição ideal, sendo simétricos em relação à linha média que divide o tampo em duas partes iguais. Os pequenos entalhes encontrados ao lado dos efes foram feitos para mostrar a posição do cavalete em cima do tampo.

O filete geralmente consiste de três lâminas finas de madeira encrostadas, bem próximas das bordas, tanto no fundo quanto no tampo, que enfatizam a beleza do formato do violoncelo, servindo também como proteção contra qualquer dano feito às bordas do instrumento. Normalmente as duas lâminas externas são feitas de madeira tingida, e a central em madeira clara.

Ainda hoje é usada uma cola do tipo gelatinosa, de origem animal e aquecida em água. Esta cola tem várias vantagens sobre as colas sintéticas que, hoje em dia, são facilmente encontradas. É essencial que ela seja solúvel em água e flexível para acompanhar a expansão e contração do instrumento durante as mudanças climáticas. Ela também permite que o cello possa ser aberto com facilidade se necessário. O uso de uma cola rígida pode provocar danos severos ao instrumento.

As faixas (laterais) são feitas em seis partes, com espessura aproximada de 2 mm, e cortadas da mesma madeira usada para o fundo. Isso faz com que os desenhos sejam semelhantes e que, talvez mais importantemente, as faixas e o fundo apresentam o mesmo índice de dilatação e contração, evitando assim rachaduras. Depois de cortadas, as faixas são moldadas sobre ferro quente para se obter a curvatura desejada, processo esse que exige grande cuidado para que a madeira não queime, nem seja danificada.

O interior do violoncelo contém muitas partes que não são visíveis e são extremamente importantes. As contrafaixas são formadas por 12 partes de pequenas tiras feitas de madeiras leves, como às do tampo, coladas nas beiradas das faixas para que, quando elas forem coladas ao tampo e ao fundo, haja uma área maior de contato. Ao mesmo tempo, seis blocos da mesma madeira são colocados, um em cada canto do instrumento, com as contrafaixas incrustadas para evitar deslocamento, um na parte superior, onde é encaixado e colado o braço do instrumento, e o último na parte inferior, com um orifício perfurado onde se encaixará o espigão.

A barra harmônica é colada no interior do tampo, passando debaixo do pé esquerdo do cavalete, do lado das cordas mais graves, e seu comprimento é de cerca de 6/8 do comprimento do tampo. Sua espessura média é de 12 mm. e sua altura no centro é de aprox. 25 mm. e 5 mm. nas extremidades. Estruturalmente, serve para reforçar o tampo devido à enorme pressão sofrida pelo instrumento na área ocupada pelo cavalete e por isso é mais alta nessa região.

A alma é uma peça de madeira cilíndrica que se encaixa (sem ser colada) entre o tampo e o fundo, cortada de modo a combinar exatamente com as suas superfícies internas, não devendo ser muito comprida, forçando o tampo, nem muito curta, caindo quando as cordas estiverem soltas. Os veios da alma devem ser perpendiculares aos do tampo para evitar danos ao mesmo. Sua grossura é normalmente de 10 a 12 mm., e deve permitir que passe através do efe direito, pois ela é apenas colocada (um pouco abaixo do pé direito do cavalete, eqüidistante da barra harmônica) depois do instrumento pronto, com o uso de uma ferramenta especial.

A barra harmônica e a alma são feitas de abeto ou pinho (a mesma madeira do tampo) e têm dupla função - acústica e estrutural.

O braço, assim como a voluta, são esculpidos de madeira maciça do mesmo tipo à do fundo e faixas, tendo aprox. 2/3 do comprimento do tampo, com a distância aproximada de 28,5 cm. da pestana até o corpo do violoncelo.

A voluta abriga a caixa de cravelhas e termina esteticamente o violoncelo. É a assinatura do lutaio, pois seu entalhe é sempre muito pessoal. A caixa de cravelhas contém as 4 cravelhas onde serão presas as cordas. Entre o braço e o entalhe são perfurados, lateralmente, 4 orifícios e depois o lutaio escavará um vão, em sentido vertical, então formando a caixa.

O acabamento é em verniz, que é feito em vários matizes de marrom, vermelho, laranja ou amarelo e que tanto pode ser à base de óleo (como usavam os antigos lutaios italianos), quanto à base de álcool (mais comum atualmente, por ter a propriedade de secar em menos tempo). No entanto, este último é mais quebradiço e menos flexível que o primeiro. 0 verniz italiano dos séculos XVII e XVIII sempre foi louvado, principalmente por sua beleza, transparência e brilho, aliados à maravilhosa profundidade da cor. A aplicação do verniz é precedida do lixamento da madeira com pedra-pomes e a aplicação de uma base feita de uma substância que teve sucesso na preservação de grandes instrumentos, mesmo quando o verniz já havia desaparecido. Esse processo resulta num acabamento forte e flexível, que protege o instrumento por muitos e muitos anos, além de permitir que vibre livremente, o que é de suma importância. Ainda hoje o procedimento é praticamente igual, mesmo quando o lutaio prefere usar um verniz à base de álcool. Um bom verniz não melhora um mau instrumento mas, certamente, um mau verniz pode arruinar um bom violoncelo.

As cravelhas são encaixadas cuidadosamente nos quatro orifícios anteriormente perfurados na voluta (caixa de cravelhas) e servem para prender as cordas e afiná-las. O espelho é colado no braço do violoncelo e sobre sua superfície o instrumentista pressionará as cordas. Ele geralmente tem 60,5 cm. de comprimento e tem um perfil curvo para que as cordas possam ser tocadas individualmente. O estandarte tem a finalidade de servir de suporte às cordas. É preso por uma peça resistente de tripa ou plástico, passando por cima da pestana (que a mantém isolada do tampo), e dá a volta em torno da base do espigão.

Dependendo do tipo de corda, usam-se até quatro afinadores finos, feitos de metal, que são colocados no estandarte e, nesse caso, seguram as extremidades das cordas. O estandarte pode ser trocado por outro de metal, plástico ou ainda de madeira, que já contenha os afinadores embutidos. Também são usados eliminadores de tons-uivados, que são colocados na corda, entre o estandarte e a fixação.

As cravelhas, o espelho, as duas pestanas e o estandarte geralmente são feitos de madeira muito dura e densa; o ébano é a madeira mais usada. Entretanto, as cravelhas e o estandarte podem ser feitos, entre outras, de pau-rosa, jacarandá-da-Bahia ou buxo, madeiras de coloração avermelhada ou amarelada.

O cavalete é feito de bordo e seus dois pés são apoiados na parte central do tampo, entre os effes. Sua curvatura, na parte superior, acompanha a do espelho e permite que cada corda possa ser tocada separadamente, ou duas a duas. Antigamente sua curvatura era menor, sempre acompanhando a do espelho e se podia tocar até três cordas de uma só vez. O cavalete é seguro apenas pela pressão exercida pelas cordas e tem a finalidade de transmitir as vibrações das cordas ao tampo.

As cordas são em número de 4 e têm o comprimento de aprox. 69 cm. da pestana até o cavalete. Antigamente elas eram feitas apenas de tripa, mas esse hábito mudou com a era tecnológica, e também por causa das mudanças de afinação desde então. Atualmente a afinação é mais alta do que na época de Haydn, quando o lá1 tinha 422 Hertz, com o lá1 atualmente variando de 440 a 444 Hertz (ciclos por segundo) em algumas orquestras. Em nossos dias, encontramos, entre outras, cordas feitas de tripa, perlon ou metal, enroladas em alumínio, aço, prata, etc. Se forem escolhidas cordas com o interior de tripa ou perlon (para as cordas mais graves), não há necessidade de afinadores, porém, se forem usadas cordas de metal, eles se fazem indispensáveis para facilitar a afinação. A maioria dos violoncelistas atuais dão preferência a estas últimas, pois seguram melhor a afinação e têm sonoridade mais potente.

O espigão - Inicialmente o corpo do violoncelo era apoiado no chão e posteriormente era tocado como a viola da gamba, isto é, seguro pelos joelhos do artista que o apoiava nas panturrilhas. Os primeiros espigões surgiram no século XIX e eram feitos de madeira, sempre destacáveis; atualmente são de metal (destacáveis ou entrando no corpo do violoncelo), podendo ser retos (com o comprimento de até 50 cm.) ou com angulação. O espigão proporciona maior conforto ao artista, apoiando o violoncelo no chão.

Como o som é produzido?

O som é produzido quando uma ou mais cordas são postas em movimento, tanto friccionado com o uso do arco que passa a crina sobre as cordas, quanto puxando-se as cordas com os dedos como no pizzicato.

A corda é a fonte vibratória do som e suas vibrações são transmitidas ao tampo pelo cavalete, que, fortemente ligado ao instrumento apenas pela pressão das cordas, tem movimentação paralela (para frente e para trás) e transversal (de cima para baixo como um martelo). O pé (apoio) direito do cavalete tem menos movimento transversal, devido à proximidade da alma, cabendo ao pé esquerdo a função de transmitir as vibrações à barra harmônica, que, por sua vez, as conduz por toda a extensão do tampo.

A alma, que influi no movimento do tampo e do fundo, é importante para que o som produzido seja de boa qualidade. Ela transmite o movimento total do tampo ao fundo, resultando em sua co-vibração. Muito da qualidade e projeção do som depende do tipo de madeira, do diâmetro e do posicionamento da alma. O corpo do violoncelo, aí incluído o ar nele contido, é o amplificador ou caixa de ressonância. Os "efes" atuam como um sistema acústico secundário ou complementar, pondo o ar que vibra no interior do cello em contato com o ar exterior, propagando e amplificando o som.

Frequencia natural e harmônicos

Todos os sons que ouvimos são compostos por um som fundamental e toda a escala harmônica nele contida (parciais do som) e, a freqüência das ondas sonoras determina a altura do som. O número e a força relativa dessas parciais determinam a qualidade sonora.

A surdina age eliminando os harmônicos (parciais) mais agudos, resultando numa sonoridade mais suave e muito diferente. Quando uma das cordas do violoncelo é movimentada, ela vibra em segmentos divididos por nódulos, nos quais a corda não vibra; a corda solta vibra em 16 segmentos. Colocando-se o dedo levemente num desses nódulos, enquanto a corda está vibrando, ela irá produzir um harmônico natural. A diferença entre este e a mesma nota pressionada é o cancelamento, no harmônico, de todos os parciais abaixo dele. Também existem os harmônicos artificiais, conseguidos a partir de uma nota pressionada. A freqüência, ou número de ondas sonoras, é determinada pelo comprimento, peso, espessura e tensão da corda.

Quanto mais comprida, pesada e grossa é a corda, mais grave o som produzido. O número de vibrações decresce à medida que a corda aumenta de tamanho. Por exemplo, a corda lá1 do violino vibra em 440 Hertz (ciclos/segundo), enquanto a corda lá do violoncelo vibra em 220 Hertz, sendo mais grossa e comprida que a do violino. Do mesmo modo, ao ter o comprimento da corda alterado pela colocação dos dedos, determina-se a freqüência da nota (altura do som).

O arco

O arco tem como principal elemento estrutural a vareta, feita de madeira flexível mas firme, com crinas de cavalo a ela ligadas em ambas as extremidades nos arcos entalhados à mão. É passada no sentido transversal sobre as cordas do violoncelo a fim de colocá-las em vibração. As crinas nos arcos de fabricação industrial são substituídas por fios de nylon. Apesar de se ter tentado substitutas, a madeira mundialmente conhecida como a melhor para o feitio de arco para instrumentos de cordas friccionadas é o pau-brasil, especialmente o originário de Pernambuco. Dispõe de um engenhoso mecanismo de esticar a crina, criado no final do século XIII por François Tourte.

A crina somente não produz atrito suficiente para a vibração; por isso usa-se passar breu na crina antes de tocar o instrumento para aumentar o atrito entre a mesma e a corda para, com isso, aumentar o volume do som.

Para maiores detalhes consulte a ótima página do luthier Rafael Sando sobre o arco.

Agradecimento

Agradecemos a gentileza do luthier Rafael Sando em nos permitir transcrever aqui detalhes sobre a construção do violoncelo, contidas em seu site www.luteria.com.br